#5 - O mar
Sempre acreditei que nossos sonhos fossem uma janela para nossa alma. Não, não tem nada a ver com interpretação esotérica ou com análise freudiana, mas sim com narrativas que tentam falar com a gente em momentos que não entenderíamos de outra forma. Mesmo quando sonhamos com as mesmas coisas, a narrativa não é a mesma. Eu, por exemplo, esperei 36 anos até entender a minha.
Eu sonho com o mar desde pequena. Aparentemente, os sonhos eram sempre os mesmos, mas só aparentemente... A verdade é que eles pareciam uma jornada heróica em que eu precisava lidar com o oceano. Não importa o quanto o sonho fosse diferente, o mar estava sempre lá para me engolir.
Nas primeiras vezes, ele parecia tão imenso e eu tão pequena que rapidamente me afogava. Eu ficava apavorada de estar tão próxima a algo tão maior que eu. Ele não pedia permissão, simplesmente me engolia e sufocava. Morri inúmeras vezes. A morte era rápida, não dava tempo de sentir nada. Eu o via vindo na minha direção e depois acordava em segurança na minha cama. Com o tempo, eu ficava cada vez mais tempo submersa. Sentia a dor da água invadindo meus pulmões até que a morte me acordava. Eu estava cada vez mais apavorada com esses sonhos. Acordava chorando e meus pais não sabiam direito o que fazer. Tentaram me ensinar a nadar, mas não deu muito certo. Meu medo de água só aumentou. O mais estranho é que meu medo era da água, mas o mar sempre me chamava.
Aos poucos, surgiram pessoas que me ensinaram a lidar com ele. Lembro que minha mãe era uma figura constante nesse período. Ela me abraçava enquanto o mar se aproximava e isso diminuía a dor. Uma tia me ensinou a ler o mar. Eu conseguia ver quando a água iria subir e isso me dava tempo para me preparar. Quando virei adolescente, tudo piorou mais uma vez. O mar continuava assustador e eu agora estava sozinha. Eu ainda era aquela mesma criança assustada com o tamanho do mar. Para não estar sozinha, criei baleias. Elas estavam ao meu lado mesmo quando parecia que eu não aguentaria. Elas me ensinaram a importância de saber o momento de subir à superfície. O oceano ainda estava imenso, mas eu já conseguia continuar viva. Mas foi com as sereias que aprendi a mantê-lo calmo.
Suas águas ainda me assustam, mas agora sei como as manter mais tempo afastadas para que eu possa me sentar um pouco na praia ou mantê-lo calmo para que eu possa brincar de ser sereia também. Ainda sonho com o mar, mas agora ele também me invade a vida. Em alguns momentos dela, estou submersa em água. Sinto que estou quase no fundo, mas a verdade é que nem vejo o fundo. A água é turva. Não consigo ver sequer minha mão. Às vezes, preciso subir para respirar, mas fico tão pouco tempo na superfície que com a mesma força vou mais ao fundo. As paredes que me cercam são água. Parecem liberdade, mas ainda sufocam. Por ser água, qualquer movimento, por menor que seja, causa um impacto em ondas. Às vezes, chega com mais intensidade e, outras, vai crescendo até formar um tsunami que arrasta tudo. Em alguns poucos momentos me sento na areia, para logo depois ser sugada novamente pela água. Queria estar em águas claras para que eu pudesse me ver com nitidez, mas na maior parte do tempo só estou no escuro. Não há peixes ou baleias. Só silêncio e escuridão, mas não é vazio. É tão cheio que sufoca. A água parece tão escura que eu quase a posso tocar.
A maioria das pessoas que conhecem meu mar pensam que querem ficar pela beleza da superfície, mas, quando descobrem o quão fundo é, desistem. Nos momentos de mar límpido, sinto-me poderosa. A própria Deusa das águas que cura a todos. Parece que posso fazer qualquer coisa. E isso nem sempre é bom. Às vezes, esqueço que não sei nadar e vou fundo demais. Às vezes, esqueço que a Deusa também precisa de cuidado. O mar da minha infância sempre estava no mesmo lugar. Eu quase posso te contar como chegar lá. Parece que é um lugar aonde sempre fui, mas descobri que ele vivia dentro de mim.
E foi assim que tentei dizer a mim mesma que havia algo errado comigo, apesar das pessoas elogiarem a criança quieta ou a criança faladeira. Sempre estive entre o mar calmo e o tsunami. E como foi incrível quando descobri que havia um nome para o que eu era. Bipolar. Gosto da palavra...
Lendo-me
· Um defeito de cor, Ana Maria Gonçalves
A escrita da Ana é tão forte que dói. Seu livro me acompanhará durante muito tempo ainda, não só pelo tamanho do livro, mas também pela força das suas histórias. Uma história tão íntima que se faz dolorosa. Saber que essa poderia muito bem ser a história da minha bisavó me destrói.
· Torto Arado
Torto Arado também fala de quem eu sou ancestralmente. Minha ligação com a terra estava presente, mesmo quando eu só via metrópole. Como diz Belonísia, a terra me pariu. Talvez por isso eu tenha escolhido uma religião pagã, que, para quem não sabe, tem a ver com terra e não demônio. Fazia muito tempo que um livro não me tomava assim. E essa é a palavra. Ele me tomou para si, assim como eu o fiz meu.
Vendo-me
· Single Parents (Disney)
Nunca me divertir tanto vendo uma série. Ela se propõe a ser bem leve, mas traz muitas pitadas de crítica, principalmente em relação a masculinidade frágil. Pais e mães solteiras que dividem as dificuldades do dia a dia e dão um show de diversidade sem crichês.
· Living Single (blackflix)
Se você gosta de Friends, vai adorar Living Single, já que foi a ideia para criação da série. Até podemos dizer cópia mesmo. Living Single traz crítica social sem ter personagens rasos. Desculpem os fãs de Friends, eu gosto também, mas não acho a série inovadora como dizem.
· Truth Be Told (Apple Tv)
Vi as duas primeiras temporadas, no qual temos uma jornalista que tem um podcast sobre crimes. O que pode parecer clichê, questiona como as narrativas são múltiplas e contraditórias dependendo de quem fala. Cada temporada teve uma história como fio e também há um entrelaçamento com as histórias da própria narradora. Gosto de series com temporadas individuais, além da ideia de questionar sempre o que pensamos sobre as pessoas.
· Maligno (Hbo)
Terror é facilmente meu gênero preferido do cinema. E A invocação do mal é a franquia que mais me assusta, apesar de eu compreender que não há muita experimentação no gênero. Gosto de não conseguir dormir por causa deles. Rsrs. Exatamente para discutir esse preconceito do público com filmes que se propõem serem de susto que o diretor da franquia James Wan resolveu construir Maligno. Você irá se assustar como em filmes mais comerciais, mas James recriou o gênero para mim. Os ângulos de câmera são incríveis e originais. A temática foi sendo construída de uma forma não linear. No início, achei que seria mais do mesmo, mas quando acabou pensei: Uau!
Ouvindo-me
· Nina Simone
Imagino que poucas pessoas não conheçam Nina Simone. Descobri primeiro a mãe bipolar em um documentário na Netflix, depois sua música potente, crítica, corajosa e sua voz grossa e forte. Vale ouvir com as traduções se você não sabe inglês como eu. Além de que jazz é minha paixão.
· Naika
Cantora haitiana que canta sobre a cultura de sua terra. Minha música preferida é Papa Guede, aqui ela mistura francês com sua língua materna e fala sobre os Papas, entidades voddo haitianas.
Se você quiser conversar sobre isso ou qualquer outra coisa, responde esse email que vou adorar receber!
Anna


Anna,
Depois de muito pelejar, descobri como posso comentar nas suas cartinhas! Espero conseguir fazer isso nos próximos números que receber.
Muito bom ler sua carta e experimentar por meio dessa leitura os seus sonhos e os afetos que eles carregam com relação ao mar... Logo o início, o primeiro parágrafo, me tocou muito. Os sonhos, assim como outros eventos da nossa vida, têm esse caráter de construção de uma narrativa. Fazem parte do conteúdo que a gente cria a partir da nossa vivência, do nosso estar-no-mundo, e que a gente usa pra saber quem a gente é (e pra contar pros outros também, como você fez).
Eu me sinto muito representada pelo que você contou sobre não estarmos prontas pra explicar tudo a qualquer momento. Tanto não estamos sempre prontas quanto estamos sempre prontas. Explico: não estamos sempre prontas pra dar a "melhor explicação possível" (que seria aquela que damos no aqui-agora), mas sempre estamos pronta para narrar de alguma forma. Os nossos sonhos são uma demonstração disso. Hoje você pode contar essa narrativa sobre sua relação com o mar, e amanhã você pode (e vai) contar outra...
Acabo tendo essa perspectiva mais elucubrativa... Poderia passar um dia só conversando sobre sua cartinha! Espero que tenhamos essa oportunidade um dia.
Carinho,
Andie.